Descrição
Este artigo examina a obra inacabada de Louise-Marie-Madeleine Dupin (1706-1799), conhecida como Ouvrage sur les femmes, e as condições de sua invisibilidade na história da filosofia. Por meio da análise do inventário elaborado por Anicet Sénéchal (1963), da atuação de Jean-Jacques Rousseau como seu secretário, e da fortuna crítica contemporânea (Marty, 2021; Hunter, 2009; Lastičová, 2023), argumenta-se que a recepção dos manuscritos foi marcada por um viés de gênero que privilegiou a letra masculina como critério de autoridade. A metáfora da construção da desigualdade, presente nos escritos de Dupin, e sua crítica a Montesquieu, revelam uma filosofia que antecipa debates centrais da modernidade política, ao mesmo tempo em que foi silenciada pelo cânone. Conclui-se que reencontrar Dupin é interrogar não apenas sua filosofia, mas os próprios mecanismos históricos de exclusão na constituição da filosofia moderna.||This article examines the unfinished work of Louise-Marie-Madeleine Dupin (1706-1799), known as the Ouvrage sur les femmes (Work on Women), and the conditions of its invisibility in the history of philosophy. Through the analysis of the inventory prepared by Anicet Sénéchal (1963), the role of Jean-Jacques Rousseau as her secretary, and contemporary critical reception (Marty, 2021; Hunter, 2009; Lastičová, 2023), it is argued that the reception of the manuscripts was marked by a gender bias that privileged the masculine letter as the criterion for authority. The metaphor of the construction of inequality, present in Dupin's writings, and her critique of Montesquieu, reveal a philosophy that anticipates central debates of political modernity while simultaneously being silenced by the canon. It is concluded that rediscovering Dupin is to interrogate not only her philosophy but the very historical mechanisms of exclusion in the constitution of modern philosophy.